23 de março de 2018
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. Livro que já começa a impactar pelo título, que mais parece uma poesia, uma sina, o avisar de uma tragédia. Uma paixão, uma intensidade. Algo belo e algo triste. Foi exatamente assim que me senti ao virar a última página: impactada.
"Alguns amores levam à ruína. Eu soube disso desde a primeira vez em que Lavínia entrou na minha casa."

Marçal Aquino traz uma história ambientada do interior do Pará, onde o narrador é o fotógrafo Cauby, que veio de São Paulo para passar um tempo explorando a região. Ele logo encontra Lavínia, uma mulher tão bela quanto misteriosa - uma mulher que vai mudar completamente o rumo da sua vida.
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é o tipo de livro que mostra o amor em sua essência. O amor cru e intenso. O amor firme, verdadeiro, mas também imprevisível. Cauby e Lavínia se envolvem de uma forma natural, o desejo que logo vira ternura e logo se transforma em algo maior, algo que definitivamente nenhum deles jamais esperou.
A história é narrada em flashbacks. O Cauby do presente, que ainda sofre as consequências de suas escolhas, nos ambienta em relação à ordem cronológica dos infortúnios que marcaram sua vida e a todo momento solta nuances que nos fazem confabular sobre o que pode de fato ter acontecido. Isso é o que nos mantém presos à história, que algumas vezes perde um pouco do ritmo por estar muito intrincada ao passado. Nossas expectativas estão no presente e queremos logo descobrir os caminhos que o levaram até ali. Ou o caminho: Lavínia. Queremos descobrir o que tem essa mulher, quem ela é, por que ela é capaz de despertar sentimentos tão profundos. Quem é Lavínia?

Lavínia foi a ruína particular de Cauby - logo vamos compreendendo o quote que afirma isso, ainda no início do livro. Ela convive com seus próprios demônios e praticamente o suga para dentro de seu caos sem ter qualquer intenção disso, sem que possa ao menos perceber. Ela é uma mulher absolutamente incompreensível: recatada, impulsiva, doce, vulgar. Todas em apenas uma. Quantas de nós não somos assim para conseguir sobreviver? Quantas de nós não fugimos um pouco de nós mesmas quando a realidade nos exige demais? Eu acredito que existe um pouco de Lavínia em cada mulher que coloca as mãos nessa história. E em cada uma que não coloca também.

A mujeres como yo no las conoces; las contraes.
Essa frase está exposta nas primeiras páginas da obra e resume bem a sua essência. Cauby contraiu Lavínia e agora vive os efeitos colaterais dessa "doença". E tudo bem - se esse é o preço a pagar, ele está plenamente disposto. E é isso o mais incrível de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. A entrega.
"Não me canso. Recito em voz alta: Lavínia. É música na minha boca. Minha canção e meu estandarte. Meu poema sujo de sangue. E meu apelo para que volte."
É incrível, é bonito e é triste. Eu amei esse livro de tantas formas que estou caindo em repetição ao tentar falar sobre ele, mas é isto: ele é incrível. A forma como tudo se encaixa e como são colocados os sentimentos finais me fez respirar fundo e ficar meia hora olhando para a parede pensando na intensidade de tudo o que eu tinha acabado de ler. É um livro que faz sentir.

Por inúmeras vezes me vi na Lavínia. E por mais assustador que isso possa parecer em alguns momentos, é natural. É natural porque ela é uma mulher que foi muito maltratada pela vida e que luta para se manter sã, para se manter limpa e fiel a si mesma. Pareceu familiar? Porque é. E é porque esse é um resumo da vida de muitas mulheres na nossa sociedade. Mulheres que querem desesperadamente se manter sãs enquanto a vida em nada colabora para isso.
Por uma perspectiva, Cauby também pode ter sido a ruína da Lavínia - mas é também a sua salvação. Entendem quão complexa se torna essa relação? E o quanto ela pode nos fazer refletir? Repito: é algo que nos faz sentir.
Quando o título do livro já é uma poesia não dá para esperar menos da sua história.

"Nunca prometemos nada um ao outro, e eu sabia que podia acabar de repente. Poema que cessa antes de virar a página. Um haikai. Na prática, contudo, não me conformava com a ideia. Eu queria mais."
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios só tem um defeito: o preço é um pouco salgado. Mas eu não hesito em dizer que vale a pena cada centavo, especialmente por ser uma obra nacional.
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Escrito por: Jennifer Macieira
8 de março de 2018
O que aconteceu comigo em 2017
Era janeiro e eu estava de volta ao bloco de comunicação social, na ufal, para a minha primeira aula do quarto semestre no curso de Jornalismo. Um semestre que eu esperava que fosse tão tranquilo quanto havia sido seu antecessor — mas não foi bem assim.
I never trust
my feelings...
abr, 2015
universidade federal de alagoas
universidade federal de alagoas
A história que eu vou contar não é bonita, emocionante, nem mostra uma superação incrível. A história que eu vou contar mostra a realidade — a realidade de muitas meninas e mulheres por aí, que você e eu podemos conhecer. Só que a protagonista dessa história, para a minha surpresa, fui eu. É muito fácil para todo mundo acreditar que a violência psicológica não existe, ou que é muito fácil dar um basta nela. Afinal, ninguém está realmente ferindo alguém, certo?
Errado. E eu posso afirmar isso através da dor da experiência que é viver algo assim.
Sempre fui uma garota de ficar mais na minha e ter poucas amigas. Na época do colégio, a Lisete e a Natália formavam o meu porto seguro e hoje eu já não consigo imaginar a minha vida sem elas. Aliás, elas, infelizmente, participaram diretamente desses acontecimentos difíceis. Quando eu vi que eles estavam atingindo pessoas tão importantes para mim, uma força que eu não sabia que tinha começou a se fazer presente e eu fiquei ainda mais determinada a fazer aquilo parar de uma vez por todas. O que eu aprendi com isso? Eu amo minhas amigas. E preciso aprender a me amar da mesma forma.
Então, dito isto, vamos lá: eu comecei a estudar comunicação social na ufal em março de 2015. No final de abril do mesmo ano, o meu pesadelo começou.
Em um resumo, um dos meus colegas de classe resolveu se aproximar de mim via whatsapp. E, logo depois, pessoalmente. Forçando situações em que pudéssemos conversar, situações as quais eram nada naturais — enquanto eu estava com minhas amigas na aula, enquanto eu estava fazendo algum trabalho com minha equipe, enquanto eu estava em qualquer lugar em que ele também estivesse. Quando me via largava quem quer que fosse e ia correndo atrás de mim. Sim, correndo. Literalmente.
Essas coisas, por mais que pareçam bobas, começaram a me assustar. Ao mesmo tempo, comecei a enfrentar algumas dificuldades com a faculdade, relacionadas ao meu rendimento e a minha frequência porque sempre fui muito tímida, mas a ufal estava me fazendo entrar em pânico. E essa situação, correndo por fora, definitivamente só piorou tudo. Aquilo precisava parar e eu decidi ser completamente sincera: falei como as ações dele estavam fazendo eu me sentir. Em troca, recebi o vitimismo.
Frightened by my feelings
jan, 2016
universidade federal de alagoas
o segundo semestre veio e agora eu mal podia entrar na sala sem que uma cena acontecesse. mãos no rosto, folhas no rosto, cabeça abaixada... o que pudesse fazer para não me ver estava valendo. o engraçado era que em público o comportamento era esse, mas quando eu estava sozinha a história era diferente. meus pais passaram a ir me levar para a aula, e eu sempre forçava atrasos para chegar quando pudesse entrar na sala já com vários alunos. meus pais passaram a ir me buscar na aula, e chegavam sempre mais cedo para eu poder ir direto para casa quando largasse. minhas amigas passaram a sempre esperar por mim quando por algum motivo eles não conseguiam chegar cedo. e só depois elas iam para casa.
mas é claro que todo mundo tem a sua rotina — e ela não poderia girar em torno de mim. sendo assim, uma vez ou outra havia momentos em que eu estava sozinha, e agora eram nesses momentos que ele se aproximava. cheguei a forçar uma ligação para a minha mãe quando percebi a intenção de uma aproximação, para que ele visse que eu estava ocupada com alguém e me deixasse quieta. é necessário dizer que não funcionou? quando me dei conta, ele estava ali, parado na minha frente enquanto escutava a conversa e aguardava que ela terminasse. levantei sem pensar duas vezes e andei o mais rápido possível para longe dali, alegando que estava indo embora. sentada no sofá da biblioteca, eu tentava me recuperar da sensação de impotência que tomava conta de mim — eu tinha manchas vermelhas pelo corpo causadas pela raiva e pela tensão, e lágrimas teimavam em cair por mais que eu tentasse manter a calma.
novamente decidi dar um basta. conversei, e expus de uma forma mais dura o absurdo que era aquele comportamento. eu não aguentava mais me sentir tão constrangida e tão impotente. mas, de novo, ele: o vitimismo. fui bloqueada. logo, bloqueei de volta. não iria admitir mais nenhum tipo de contato com uma pessoa que vinha me causando tão mal e elevando a minha ansiedade a níveis preocupantes — especialmente porque, naquela época, eu não estava fazendo nenhum tipo de tratamento.
as crises de pânico vieram e com elas o desânimo também. eu não sentia a menor vontade de ir para as aulas, algo que para mim já era difícil sem essa situação. ele tentou falar comigo através de pelo menos uns dois números diferentes, sem sucesso. e então aconteceu: ele tentou me abordar no meio da sala, com professor e colegas presentes, minutos antes da aula começar. o motivo era o seguinte: uma carta de várias páginas manuscritas que ele precisava que eu recebesse.
me recusei. falei que ele sabia que estava passando dos limites. insistência, muita insistência. quando eu estava a ponto de perder completamente a paciência, minha amiga interferiu e mandou ele sair dali. incrivelmente, quando ela falou isso, ele saiu. de novo, a impotência.
mas ele não saiu de uma maneira silenciosa. claro que não.
a tempestade com que ele abriu e fechou a porta foi tão grande que quase atingiu uma colega que ia chegando, e isso assustou todos que estavam presentes. minhas colegas todas sabiam o motivo daquilo, e me perguntaram apenas para confirmar. e daí o trabalho foi para explicar ao professor e ao restante da turma o que tinha acontecido. e estava acontecendo. esse foi um dos momentos mais legais que vivi no cos, o prédio de comunicação social. foi um dos momentos mais legais porque eu me senti acolhida e protegida por colegas que não muito antes mal trocavam um olhar comigo. na segunda aula desse dia, eu comecei a chorar e já não sabia mais como lidar com a avalanche de sentimentos que tudo aquilo me causou.
as cenas continuaram até o fim daquele período e, no terceiro, ele mudou o horário das aulas. finalmente parecia que eu ia conseguir enfim ter um pouco de paz para focar apenas em mim e nos meus estudos. assim, o terceiro período passou sem maiores incidentes, e eu, inocente, me permiti ter esperanças.
mas vamos a 2017.
Holding down my feelings
jan, 2017
universidade federal de alagoas
quando eu estava terminando o meu terceiro semestre da faculdade, minha mãe conseguiu entrar para o curso de letras, iniciando no período seguinte. nem preciso mencionar aqui o quanto nós ficamos felizes mesmo sabendo que não seria fácil. a natália já estudava letras há um período e poderia servir como um apoio, sem falar que agora iríamos juntas para a ufal no período da tarde, o que ajudaria a economizar e, tecnicamente, na minha segurança. só que não foi bem assim. não foi porque mal o quarto semestre começou e eu comecei a encontrar meu colega com bastante frequência na fale, o bloco de letras da ufal.
como ele tinha passado a estudar no turno da noite, de primeira aquilo não fez sentido pra mim. mas logo depois cheguei à conclusão de que ele deveria fazer parte do ccc - casa de cultura no campus, que oferece aulas de inglês gratuitas para alunos da instituição, onde a minha amiga natália até hoje é professora. mas ela não era professora dele, pelo menos.
tudo começou a piorar porque os horários batiam exatamente com os meus e com os da minha mãe. não foi raro eu chegar na fale e encontrar mamãe possessa porque tinha encontrado com ele, ou porque o tinha visto lhe observando. ela pediu várias vezes que eu permitisse que ela fosse confrontá-lo, mas eu achei melhor evitar. eu tinha medo pela minha mãe também, é claro que tinha. e de jeito algum queria que ela chegasse perto daquela pessoa.
eu tinha a fale como uma espécie de refúgio. sempre que passava mal em alguma aula e não conseguia controlar alguma crise de choro, o que acontecia com certa frequência, eu corria pra lá e pro colo da nati sempre que possível. depois que minha mãe passou a ser aluna de lá, esse sentimento só ficou mais forte — mas agora estava tudo acabado. o sentimento de alívio que o lugar me passava passou a ser um sentimento de tensão e tudo isso veio como uma tempestade de volta para cima de mim.
8 mar, 2017
universidade federal de alagoas
era dia internacional da mulher e eu estava doente. cogitei me dar um presente e ficar em casa naquele dia, já que minha aula seria apenas às 17h e a da minha mãe às 13h30. seria muito tempo de espera para uma pessoa saudável, imagine para alguém doente, mas um espírito estudioso tomou conta de mim e eu decidi ir mesmo assim. quem dera não tivesse tomado essa decisão.
fui com mamãe tirar umas cópias que ela precisava, em um prédio ali ao lado. quando entrei com ela, estava distraída conversando até que ouvi um grito. levantei a vista a tempo de ver alguém correr e entrar em uma das salas de aula que estavam vazias naquele horário. e imediatamente soube de quem havia sido o grito. fiquei nervosa. inquieta. constrangida. vários colegas de classe da minha mãe estavam por perto. fiquei literalmente sem saber o que fazer, mas tentei respirar fundo enquanto mamãe fazia o que precisava e ele continuava escondido. logo depois decidir ir embora com ela, porque eu não aguentaria outro escândalo daqueles.
assim, enquanto lemos um relato desses, pode parecer uma bobagem e um exagero. mas não é. você ouvir uma pessoa gritar desesperada em um lugar público por você simplesmente estar ali é doentio. é assustador. é se sentir a pior pessoa do mundo mesmo com a clareza de que nada daquilo é culpa sua. eu sabia que não era minha culpa e eu me sentia culpada mesmo assim quando esse tipo de coisa acontecia. é sentir culpa e raiva e impotência — tudo ao mesmo tempo.
voltei pra casa e fiz o possível pra relaxar. vi futebol. conversei com pessoas especiais para mim. e fiquei bem. apesar de tudo, havia sido um bom dia. só que ele não havia acabado.
sempre dormi muito tarde. muita gente sabe disso, inclusive ele sabia, graças a época em que passava horas e horas puxando assuntos para tentar conversar comigo. naquele dia, estava entretida com o notebook fazendo as coisas que eu amo fazer quando finalmente lembrei de dar uma olhada no celular. não havia nenhuma notificação aparente, mas desbloqueei e fui olhar mesmo assim. achei uma notificação escondida do telegram, o que me fez estranhar e abrir na mesma hora, já que era um aplicativo que eu não usava mais fazia algum tempo. era uma mensagem dele, mas não uma mensagem qualquer.
a primeira coisa que notei foi a hora. logo chequei o relógio — já passava de 1h da manhã, e o texto tinha sido enviado mais de uma hora antes. a segunda coisa que eu notei foi o tamanho. eram quatro parágrafos enormes, com direito a poesia no fim e tudo. mas nada daquilo fazia sentido e eu fiquei tão nervosa que fechei tudo para tentar organizar meus pensamentos. respirei fundo, tentei me acalmar e abri novamente. ele mandava por um número diferente do que eu sabia, mais uma estratégia para conseguir entrar em contato comigo. comecei a ler o texto fora da ordem cronológica — uma mania que tenho na vida e que sempre prejudica a minha concentração. mas isso foi crucial para que eu não demorasse muito a perceber que o que eu tinha em mãos era um bilhete suicida.
não importa o quanto eu tente, palavras jamais serão suficientes para que eu consiga explicar o que senti no momento. eu fiquei desesperada, angustiada, completamente perdida. eu poderia dizer que entrei em choque, porque, de início, tive absolutamente nenhuma reação. passou tudo e nada pela minha cabeça: raiva, culpa, preocupação e raiva novamente. eu não sabia o que fazer, então meu corpo começou a reagir por mim. eu chorei — eu chorei muito. meu cérebro rapidamente fez as contas e se ele realmente estivesse disposto a fazer algo, àquela altura já teria feito. fiquei tão desnorteada que, quando já passava das 2h, eu acordei minha mãe. já tinha mandado mensagens pra dois amigos, mesmo sabendo que eles estariam dormindo. só que eu precisava falar com alguém.
minha mãe ficou brava. com ele. porque aquilo era tão absurdo de se fazer com alguém que nós duas simplesmente não conseguíamos expressar uma pra outra o que estávamos sentindo. o amparo da minha mãe foi a coisa mais importante pra mim naquele momento e quando eu finalmente consegui me acalmar mais, levantei da cama para ir ao banheiro e foi aí que eu realmente percebi o quanto meu corpo reagiu ao meu desespero. sangue. tinha sangue no lençol no colchão e na minha roupa. e não era pouco. eu estava no final do meu ciclo e eu nunca — nunca — tinha visto aquela quantidade de sangue saindo de mim.
meu organismo ficou tão desequilibrado quanto as palavras que eu havia acabado de ler. a mensagem não era uma simples despedida: as palavras eram cruéis. aquele texto foi feito para eu me sentir mal. para eu sentir culpa, apesar de ele frisar ali que não era nada disso. como não era? em um dos trechos, ele fez questão de destacar o quanto já tinha ouvido falarem mal de mim pelas costas. o quanto já tinha ouvido de colegas minhas como eu era uma idiota, imatura e mal amada. para uma pessoa com a autoestima baixa, isso é o mesmo que vários socos no estômago, porque eu realmente percebia que me tratavam um pouco diferente. ele também destacou que, ao contrário delas, sempre teve uma visão positiva de mim e preferia seguir acreditando que o meu coração era bom. tão legal ele, não é? e eu cometendo aquelas injustiças!
no fim das contas, ele continuou muito vivo. um colega, que se tornou meu amigo, entrou em contato e ele alegou ter, sim, atentado contra a própria vida, mas não teve sucesso. dos males, o menor. eu acho que poucas vezes na vida senti tanto alívio. eu cheguei a me perguntar se aquela tinha sido mesmo a intenção ou se tudo aquilo havia sido uma atitude desonesta para me fazer ir atrás dele. até hoje eu não sei. e tento não pensar mais no assunto. nem no presente que recebi no dia internacional da mulher de dois mil e dezessete.
abril, 2017
universidade federal de alagoas
era final de abril e eu havia acabado de entrar no restaurante universitário com dois amigos, sendo um deles também um colega de classe, aquele que me ajudou depois do bilhete suicida. eles seguiram para a fila e eu fui buscar um lugar para sentar. estava completamente relaxada e bem, apenas matando um tempo enquanto minha mãe não largava. só que essa tranquilidade logo se transformou em tensão. mais uma vez.
não demorou muito tempo para o meu colega sair da fila e vir até o lugar que eu tinha escolhido. o motivo? ele, (sim, ele) estava lá. e estava bem perto de mim. minha postura mudou imediatamente e nós dois fomos buscar uma mesa do lado oposto do restaurante, um lugar de onde eu poderia observar melhor o ambiente e também os meus amigos na fila. um, dois minutos. e então ele apareceu.
ele não seguiu para onde eu estava. ele sabia que seria um erro. então ele foi direto para onde os meninos estavam — e começou a gesticular e a gritar e a fazer uma cena. eu fiquei nervosa e inquieta porque eu não conseguia entender nada do que eles diziam, mesmo sabendo que não era nada bom. eu não podia me aproximar, porque sabia que seria pior. e eu não podia ir embora. fiquei plantada onde estava assistindo aquela cena acontecer.
lembrando agora, parece uma eternidade. porque foi mesmo — para mim e para eles, eu tenho certeza que foi. as pessoas olham. coisas assim acontecem diariamente, mas parece que nunca conosco. achar isso é sempre o nosso erro. eu estava cada vez mais apavorada com a iminência daquilo se tornar uma briga física, e minha ansiedade, ao invés de fazer eu me mexer, me congelou onde estava. eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo. mas estava.
a discussão era voltada para o meu colega, que havia sido amigo dele em outros tempos, mas que agora já não concordava com as suas atitudes. e isso me assustou. meu outro amigo conseguiu fazer com que ele parasse com aquilo a tempo, e foi com ele em direção a saída. e quando meu colega veio falar comigo, eu finalmente pude saber o que tinha se passado. ciúmes. ele estava absolutamente descontrolado de ciúmes. as pessoas fazem coisas absurdas por ciúmes.
quando estávamos de volta só os três, fomos embora imediatamente. eu já tinha falado com minha mãe e ela estava me esperando no estacionamento da fale — para onde os meninos foram me levar. porque agora eu precisava de babás para todo lugar que ia. eles nem sequer comeram, pegaram o lanche para comer depois. um dia em que estava tudo bem havia se transformado em um estresse imenso. mais. uma. vez.
eu já não aguentava mais aquilo. e então aconteceu.
maio, 2017
universidade federal de alagoas
eu estava saindo do cos quando recebi mais uma mensagem do meu amigo. eu tinha acabado de sair de uma prova de reavaliação e estava com aquele sentimento bom de alívio, até ele dizer que tinha sido procurado para receber uma carta. a carta dessa vez era para ele, não para mim. uma possível consequência daquele dia no RU, algumas semanas antes. ele concordou em receber e logo descobriu que na verdade, sim, havia também uma para mim. estratégias para entrar em contato comigo — sabem como é.
fui à ufal no dia seguinte junto com minha irmã apenas para recebê-la. dessa vez eu quis tê-la em mãos. não de início. a minha primeira reação foi não querer saber. eu não queria absolutamente nada que viesse daquela pessoa, eu não queria ler nem mais uma palavra dele. mas então a jess, minha irmã, resolveu que queria sim ler e que nós iríamos buscar. então assim fizemos.
eu li as duas cartas. a carta para o meu amigo estava carregada de um ódio doentio e de ameaças veladas. era uma coisa absurda, porque ele falava as coisas e depois tentava amenizar, disfarçar, acalmar. mordendo e assoprando. a minha não. a minha era carregada do drama e do vitimismo de sempre. eu fui obrigada a ler que a culpa de tudo aquilo estar acontecendo era minha, porque eu recusei aquela primeira carta que ele quis me entregar. essa minha atitude, em palavras dele, o destruiu. e agora ele fazia de tudo para eu ler, para impor a vontade dele diante da minha. uma prova disso é que nessa nova carta havia inúmeras citações da antiga, a que eu recusei. aliás — essa nova carta mais parecia um trabalho acadêmico, com citações, regras da abnt aplicadas e mais um pouco. absolutamente doentio. assustador.
essa nova carta foi o começo do fim. em mais de um aspecto.
ao lê-la, eu e minha irmã identificamos muitas ameaças. meu sobrenome é muito característico, macieira não é um nome que se encontre com frequência por aí. e na carta ele dizia que estava até mesmo com uma aversão a maçãs e que, quando via a fruta, sentia vontade de atirar contra a parede. o equilíbrio da pessoa. ele estava nulo.
lá também dizia que aquela situação fazia todos perderem. que nós não nos falarmos era algo ruim e que aquele clima pesado permanecendo por mais tempo iria levar a consequências ainda piores. jess sublinhou todas essas ameaças, e no dia seguinte nós estávamos na delegacia. eu precisava de paz. eu precisava que aquilo parasse. meu corpo e minha mente estavam dando sinais — e eu precisava ouvir.
fiz todos os procedimentos, e uma das minhas amigas testemunhou para mim, mesmo com medo. eu até hoje não sei como agradecer por isso. o processo seguiu, bem lento. eles não tinham nenhum dado dele além do nome que eu forneci, e a universidade precisava entrar em cena. o que demorou meses.
as férias chegaram e eu me permiti ter um pouco de esperança de tudo aquilo passar. mas então a lis entrou em contato comigo: estava nervosa, tremendo, precisou beber uma água. ele tinha entrado em contato com ela. e aí eu fiquei completamente fora de mim. se ele já havia passado dos limites antes, agora não tinha nem conversa. eu havia relutado em ir na delegacia pela primeira vez, mas agora iria quantas vezes fossem necessárias.
ele não sabia se eu tinha recebido aquela nova carta, então procurou na internet pela amiga que ele sabia que escrevia um blog comigo. enviou um anexo para ela. implorou por ajuda. contou a história na versão dele. demonizou meu amigo. disse que ele era o culpado por ele tentar se matar. tudo isso em cima da minha amiga. nós conversamos e chegamos no acordo de que ela não iria responder. nem mesmo ele saberia se ela viu ou não. isso o inibiria. foi o que pensamos.
ago, 2017
universidade federal de alagoas
o quinto semestre começou e, sem nenhuma resposta por parte da lis, ele tomou medidas ainda mais desesperadas. descobriu o curso dela, descobriu que uma menina que tinha estudado com ele no inglês era da sala dela e foi atrás. sim. ele foi atrás de uma colega de classe da minha melhor amiga para pedir o número dela do whatsapp. diante de uma negativa, na semana seguinte ele surgiu com um novo método: escreveu à mão tudo o que ele tinha antes digitado e mandado no privado do facebook da lis, além de ter impresso uma outra cópia daquela nova carta para mim. para se certificar de que ela leria tudo o que ele queria que ela lesse. para impor a vontade dele diante da dela. sem sucesso. a menina entregou a encomenda para a lis, completamente constrangida. e ele cobrou resposta para ela, o que fez a lis responder algo apenas para ele parar de perturbar a sua colega. todo mundo tinha que fazer o que ele queria e seguir o roteiro dele.
mas a resposta da lis não foi a que ele queria. ela disse que ele jamais conseguiria algo dela e que todas as minhas amigas iriam me proteger. mandou ele se afastar.
ele não se afastou. ele foi em busca de outra amiga. lembram da natália? pois é. nesse infeliz semestre, ela era a professora dele de inglês. e ele sabia que éramos amigas. procurou ela no início da aula e tentou começar o assunto — e foi cortado imediatamente. recebi áudios da minha amiga naquele dia mais tarde, completamente brava por ele ter tido aquela audácia. ela deu aula sentindo o corpo tremer de raiva. ele estava fazendo aquilo com as minhas amigas, que sempre me ajudaram e que sempre estiveram ali por mim. aquilo definitivamente não podia continuar. procurei ajuda na pró reitoria da universidade, e só o que puderam me oferecer foi acompanhamento psicológico. procurei ajuda com o coordenador do meu curso, que deu pouco ou nenhum valor para a situação e ainda me falou para "deixar ele para lá, não dar atenção". como se eu nunca tivesse pensado naquilo antes. e nada da polícia dar resposta.
eu vi uma lixeira ser esmurrada em um dia que encontrei com ele por acaso. ele gritou, correu e esmurrou uma lixeira. por ter me visto. eu não me permiti ficar assustada, porque minha mãe e minha irmã estavam bem ali já me esperando. eu apenas entrei no carro e fui embora.
uma semana depois, mais uma lixeira se foi. ele estava depredando o patrimônio da universidade. apenas por me ver. e apesar do que todos achavam, que ele me via como alguém que tinha a aura de um anjo e que jamais seria capaz de me machucar fisicamente, foi inevitável para mim pensar em quanto tempo levaria para que as lixeiras dessem lugar ao meu rosto. a partir daí, sem a minha família por perto para fazer eu me sentir segura, eu me permiti assustar. no dia do falecimento da segunda lixeira, eu estava na fale com a layla, uma das minhas amigas da ufal, e com meus dois amigos. mais uma cena, mais uma crise. ele fez uma pessoa vir até nós perguntar quem era a jennifer, porque ele precisava falar comigo. de forma alguma eu me aproximaria dele e fui embora na primeira oportunidade.
mais tarde eu fiquei sabendo pela natália: ele tentou se matar. mais uma vez. ali mesmo. ele chamava pelo meu sobrenome enquanto algumas pessoas o socorriam — pessoas que eram ex-colegas da minha mãe. que sabiam quem eu era. sim, ex-colegas. minha mãe desistiu de estudar para me manter longe da fale, e ninguém conseguiu fazê-la mudar de ideia.
na semana seguinte, nós quatro estávamos no cos. eu, minha amiga e meus amigos. uma colega nossa se aproxima e diz que quer conversar comigo. já imaginei qual seria o assunto, e não deu outra: ele a tinha procurado na noite anterior para pedir ajuda. para que ela falasse comigo para retirar a queixa, porque ele finalmente havia sido intimado para depor. ela recusou e veio me alertar. mostrou coisas absurdas que ele falou. coisas que me assustaram ainda mais. se é que isso era possível. apesar de tudo, todos nós ficamos felizes. aquilo era sinal de que a polícia finalmente havia começado a agir. e assim eu e a layla fomos para a aula.
nós estávamos na metade do caminho quando os meninos nos alcançam correndo.
ele estava ligando para um deles, o nosso colega. depois de um desencontro de opiniões quanto a atender ou não (eu, contra. eles, a favor), ele atendeu. e as notícias não foram boas.
ele estava ali, e ele queria que nós, eu e meu colega, fôssemos até onde ele estava. ele estava irredutível e quando meu colega disse que não estava no cos, ele entregou: sabia que sim. tanto ele como eu estávamos ali. então nos demos conta: ele estava nos vendo. dei alguns passos para trás e olhei pela porta. ele estava ali, do outro lado, perto de uma árvore. nos encarando.
aquilo se transformou em um rebuliço. mais pessoas ficaram sabendo. minha colega, com quem ele tinha falado na noite anterior e para quem ele ligou em seguida, o fez ir embora. depois de muito insistir. não permitiu que ele se aproximasse de mim. e ao ver quantas pessoas estavam ali comigo, ele finalmente desistiu. mas todos nós já estávamos com o nível de estresse passando dos limites.
para falar a verdade, eu não me lembro muito desse dia. apenas lembro de chorar na sala. de receber abraços que confortaram. de dizer para o professor o motivo de eu precisar ir embora. e eu fui embora. a layla foi para a minha casa e ficou lá comigo. passamos a noite conversando e falando sobre a vida, em como ela é imprevisível e cruel quando quer. e no dia seguinte seguimos para a delegacia. ele não iria mais conseguir me calar com ameaças.
fev, 2018
8º juizado especial cível e criminal, ufal
a audiência ocorreu em fevereiro, uma semana depois do dia em que completei vinte e um anos. e seis meses depois dos piores acontecimentos da minha vida, meses nos quais eu tive que viver com a palavra do pai dele de que ele jamais voltaria a me importunar e que iria buscar um tratamento. não foram meses bons.
eu fiz questão que a minha defesa fosse feita por uma mulher. não por menosprezar o trabalho de um homem, mas por ter a certeza de que ninguém pode imaginar o que é passar por uma situação dessas a não ser outra mulher. ela lidou absurdamente bem com o caso. e comigo. não foi só minha advogada, mas também uma psicóloga e uma amiga para mim. fiz algumas escolhas ruins na vida — mas também fiz outras fantásticas.
ele não pode mais se aproximar de mim, da minha família nem dos meus amigos. não pode falar de mim na internet ou através de qualquer meio. não pode mencionar o meu blog — esse blog — em nenhuma de suas redes sociais, como já havia feito antes. eu espero, de verdade, ter conseguido a minha paz. era só isso que eu queria. é só isso que eu quero.
abril, 2017
universidade federal de alagoas
era final de abril e eu havia acabado de entrar no restaurante universitário com dois amigos, sendo um deles também um colega de classe, aquele que me ajudou depois do bilhete suicida. eles seguiram para a fila e eu fui buscar um lugar para sentar. estava completamente relaxada e bem, apenas matando um tempo enquanto minha mãe não largava. só que essa tranquilidade logo se transformou em tensão. mais uma vez.
não demorou muito tempo para o meu colega sair da fila e vir até o lugar que eu tinha escolhido. o motivo? ele, (sim, ele) estava lá. e estava bem perto de mim. minha postura mudou imediatamente e nós dois fomos buscar uma mesa do lado oposto do restaurante, um lugar de onde eu poderia observar melhor o ambiente e também os meus amigos na fila. um, dois minutos. e então ele apareceu.
ele não seguiu para onde eu estava. ele sabia que seria um erro. então ele foi direto para onde os meninos estavam — e começou a gesticular e a gritar e a fazer uma cena. eu fiquei nervosa e inquieta porque eu não conseguia entender nada do que eles diziam, mesmo sabendo que não era nada bom. eu não podia me aproximar, porque sabia que seria pior. e eu não podia ir embora. fiquei plantada onde estava assistindo aquela cena acontecer.
lembrando agora, parece uma eternidade. porque foi mesmo — para mim e para eles, eu tenho certeza que foi. as pessoas olham. coisas assim acontecem diariamente, mas parece que nunca conosco. achar isso é sempre o nosso erro. eu estava cada vez mais apavorada com a iminência daquilo se tornar uma briga física, e minha ansiedade, ao invés de fazer eu me mexer, me congelou onde estava. eu não podia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo. mas estava.
a discussão era voltada para o meu colega, que havia sido amigo dele em outros tempos, mas que agora já não concordava com as suas atitudes. e isso me assustou. meu outro amigo conseguiu fazer com que ele parasse com aquilo a tempo, e foi com ele em direção a saída. e quando meu colega veio falar comigo, eu finalmente pude saber o que tinha se passado. ciúmes. ele estava absolutamente descontrolado de ciúmes. as pessoas fazem coisas absurdas por ciúmes.
quando estávamos de volta só os três, fomos embora imediatamente. eu já tinha falado com minha mãe e ela estava me esperando no estacionamento da fale — para onde os meninos foram me levar. porque agora eu precisava de babás para todo lugar que ia. eles nem sequer comeram, pegaram o lanche para comer depois. um dia em que estava tudo bem havia se transformado em um estresse imenso. mais. uma. vez.
eu já não aguentava mais aquilo. e então aconteceu.
maio, 2017
universidade federal de alagoas
eu estava saindo do cos quando recebi mais uma mensagem do meu amigo. eu tinha acabado de sair de uma prova de reavaliação e estava com aquele sentimento bom de alívio, até ele dizer que tinha sido procurado para receber uma carta. a carta dessa vez era para ele, não para mim. uma possível consequência daquele dia no RU, algumas semanas antes. ele concordou em receber e logo descobriu que na verdade, sim, havia também uma para mim. estratégias para entrar em contato comigo — sabem como é.
fui à ufal no dia seguinte junto com minha irmã apenas para recebê-la. dessa vez eu quis tê-la em mãos. não de início. a minha primeira reação foi não querer saber. eu não queria absolutamente nada que viesse daquela pessoa, eu não queria ler nem mais uma palavra dele. mas então a jess, minha irmã, resolveu que queria sim ler e que nós iríamos buscar. então assim fizemos.
eu li as duas cartas. a carta para o meu amigo estava carregada de um ódio doentio e de ameaças veladas. era uma coisa absurda, porque ele falava as coisas e depois tentava amenizar, disfarçar, acalmar. mordendo e assoprando. a minha não. a minha era carregada do drama e do vitimismo de sempre. eu fui obrigada a ler que a culpa de tudo aquilo estar acontecendo era minha, porque eu recusei aquela primeira carta que ele quis me entregar. essa minha atitude, em palavras dele, o destruiu. e agora ele fazia de tudo para eu ler, para impor a vontade dele diante da minha. uma prova disso é que nessa nova carta havia inúmeras citações da antiga, a que eu recusei. aliás — essa nova carta mais parecia um trabalho acadêmico, com citações, regras da abnt aplicadas e mais um pouco. absolutamente doentio. assustador.
essa nova carta foi o começo do fim. em mais de um aspecto.
ao lê-la, eu e minha irmã identificamos muitas ameaças. meu sobrenome é muito característico, macieira não é um nome que se encontre com frequência por aí. e na carta ele dizia que estava até mesmo com uma aversão a maçãs e que, quando via a fruta, sentia vontade de atirar contra a parede. o equilíbrio da pessoa. ele estava nulo.
lá também dizia que aquela situação fazia todos perderem. que nós não nos falarmos era algo ruim e que aquele clima pesado permanecendo por mais tempo iria levar a consequências ainda piores. jess sublinhou todas essas ameaças, e no dia seguinte nós estávamos na delegacia. eu precisava de paz. eu precisava que aquilo parasse. meu corpo e minha mente estavam dando sinais — e eu precisava ouvir.
fiz todos os procedimentos, e uma das minhas amigas testemunhou para mim, mesmo com medo. eu até hoje não sei como agradecer por isso. o processo seguiu, bem lento. eles não tinham nenhum dado dele além do nome que eu forneci, e a universidade precisava entrar em cena. o que demorou meses.
as férias chegaram e eu me permiti ter um pouco de esperança de tudo aquilo passar. mas então a lis entrou em contato comigo: estava nervosa, tremendo, precisou beber uma água. ele tinha entrado em contato com ela. e aí eu fiquei completamente fora de mim. se ele já havia passado dos limites antes, agora não tinha nem conversa. eu havia relutado em ir na delegacia pela primeira vez, mas agora iria quantas vezes fossem necessárias.
ele não sabia se eu tinha recebido aquela nova carta, então procurou na internet pela amiga que ele sabia que escrevia um blog comigo. enviou um anexo para ela. implorou por ajuda. contou a história na versão dele. demonizou meu amigo. disse que ele era o culpado por ele tentar se matar. tudo isso em cima da minha amiga. nós conversamos e chegamos no acordo de que ela não iria responder. nem mesmo ele saberia se ela viu ou não. isso o inibiria. foi o que pensamos.
ago, 2017
universidade federal de alagoas
o quinto semestre começou e, sem nenhuma resposta por parte da lis, ele tomou medidas ainda mais desesperadas. descobriu o curso dela, descobriu que uma menina que tinha estudado com ele no inglês era da sala dela e foi atrás. sim. ele foi atrás de uma colega de classe da minha melhor amiga para pedir o número dela do whatsapp. diante de uma negativa, na semana seguinte ele surgiu com um novo método: escreveu à mão tudo o que ele tinha antes digitado e mandado no privado do facebook da lis, além de ter impresso uma outra cópia daquela nova carta para mim. para se certificar de que ela leria tudo o que ele queria que ela lesse. para impor a vontade dele diante da dela. sem sucesso. a menina entregou a encomenda para a lis, completamente constrangida. e ele cobrou resposta para ela, o que fez a lis responder algo apenas para ele parar de perturbar a sua colega. todo mundo tinha que fazer o que ele queria e seguir o roteiro dele.
mas a resposta da lis não foi a que ele queria. ela disse que ele jamais conseguiria algo dela e que todas as minhas amigas iriam me proteger. mandou ele se afastar.
ele não se afastou. ele foi em busca de outra amiga. lembram da natália? pois é. nesse infeliz semestre, ela era a professora dele de inglês. e ele sabia que éramos amigas. procurou ela no início da aula e tentou começar o assunto — e foi cortado imediatamente. recebi áudios da minha amiga naquele dia mais tarde, completamente brava por ele ter tido aquela audácia. ela deu aula sentindo o corpo tremer de raiva. ele estava fazendo aquilo com as minhas amigas, que sempre me ajudaram e que sempre estiveram ali por mim. aquilo definitivamente não podia continuar. procurei ajuda na pró reitoria da universidade, e só o que puderam me oferecer foi acompanhamento psicológico. procurei ajuda com o coordenador do meu curso, que deu pouco ou nenhum valor para a situação e ainda me falou para "deixar ele para lá, não dar atenção". como se eu nunca tivesse pensado naquilo antes. e nada da polícia dar resposta.
eu vi uma lixeira ser esmurrada em um dia que encontrei com ele por acaso. ele gritou, correu e esmurrou uma lixeira. por ter me visto. eu não me permiti ficar assustada, porque minha mãe e minha irmã estavam bem ali já me esperando. eu apenas entrei no carro e fui embora.
uma semana depois, mais uma lixeira se foi. ele estava depredando o patrimônio da universidade. apenas por me ver. e apesar do que todos achavam, que ele me via como alguém que tinha a aura de um anjo e que jamais seria capaz de me machucar fisicamente, foi inevitável para mim pensar em quanto tempo levaria para que as lixeiras dessem lugar ao meu rosto. a partir daí, sem a minha família por perto para fazer eu me sentir segura, eu me permiti assustar. no dia do falecimento da segunda lixeira, eu estava na fale com a layla, uma das minhas amigas da ufal, e com meus dois amigos. mais uma cena, mais uma crise. ele fez uma pessoa vir até nós perguntar quem era a jennifer, porque ele precisava falar comigo. de forma alguma eu me aproximaria dele e fui embora na primeira oportunidade.
mais tarde eu fiquei sabendo pela natália: ele tentou se matar. mais uma vez. ali mesmo. ele chamava pelo meu sobrenome enquanto algumas pessoas o socorriam — pessoas que eram ex-colegas da minha mãe. que sabiam quem eu era. sim, ex-colegas. minha mãe desistiu de estudar para me manter longe da fale, e ninguém conseguiu fazê-la mudar de ideia.
na semana seguinte, nós quatro estávamos no cos. eu, minha amiga e meus amigos. uma colega nossa se aproxima e diz que quer conversar comigo. já imaginei qual seria o assunto, e não deu outra: ele a tinha procurado na noite anterior para pedir ajuda. para que ela falasse comigo para retirar a queixa, porque ele finalmente havia sido intimado para depor. ela recusou e veio me alertar. mostrou coisas absurdas que ele falou. coisas que me assustaram ainda mais. se é que isso era possível. apesar de tudo, todos nós ficamos felizes. aquilo era sinal de que a polícia finalmente havia começado a agir. e assim eu e a layla fomos para a aula.
nós estávamos na metade do caminho quando os meninos nos alcançam correndo.
ele estava ligando para um deles, o nosso colega. depois de um desencontro de opiniões quanto a atender ou não (eu, contra. eles, a favor), ele atendeu. e as notícias não foram boas.
ele estava ali, e ele queria que nós, eu e meu colega, fôssemos até onde ele estava. ele estava irredutível e quando meu colega disse que não estava no cos, ele entregou: sabia que sim. tanto ele como eu estávamos ali. então nos demos conta: ele estava nos vendo. dei alguns passos para trás e olhei pela porta. ele estava ali, do outro lado, perto de uma árvore. nos encarando.
aquilo se transformou em um rebuliço. mais pessoas ficaram sabendo. minha colega, com quem ele tinha falado na noite anterior e para quem ele ligou em seguida, o fez ir embora. depois de muito insistir. não permitiu que ele se aproximasse de mim. e ao ver quantas pessoas estavam ali comigo, ele finalmente desistiu. mas todos nós já estávamos com o nível de estresse passando dos limites.
para falar a verdade, eu não me lembro muito desse dia. apenas lembro de chorar na sala. de receber abraços que confortaram. de dizer para o professor o motivo de eu precisar ir embora. e eu fui embora. a layla foi para a minha casa e ficou lá comigo. passamos a noite conversando e falando sobre a vida, em como ela é imprevisível e cruel quando quer. e no dia seguinte seguimos para a delegacia. ele não iria mais conseguir me calar com ameaças.
fev, 2018
8º juizado especial cível e criminal, ufal
a audiência ocorreu em fevereiro, uma semana depois do dia em que completei vinte e um anos. e seis meses depois dos piores acontecimentos da minha vida, meses nos quais eu tive que viver com a palavra do pai dele de que ele jamais voltaria a me importunar e que iria buscar um tratamento. não foram meses bons.
eu fiz questão que a minha defesa fosse feita por uma mulher. não por menosprezar o trabalho de um homem, mas por ter a certeza de que ninguém pode imaginar o que é passar por uma situação dessas a não ser outra mulher. ela lidou absurdamente bem com o caso. e comigo. não foi só minha advogada, mas também uma psicóloga e uma amiga para mim. fiz algumas escolhas ruins na vida — mas também fiz outras fantásticas.
ele não pode mais se aproximar de mim, da minha família nem dos meus amigos. não pode falar de mim na internet ou através de qualquer meio. não pode mencionar o meu blog — esse blog — em nenhuma de suas redes sociais, como já havia feito antes. eu espero, de verdade, ter conseguido a minha paz. era só isso que eu queria. é só isso que eu quero.
Explaining what I feel, that empty feeling
Todos esses acontecimentos, ao longo de três anos, mexeram muito comigo e hoje eu não me considero uma garota psicologicamente saudável. Sei que ainda tenho muito o que caminhar, mas é desgastante e a cada nova crise bate uma desesperança de que um dia eu volte a ficar bem. Nem tudo foi consequência dessa violência, porque mesmo antes eu já enfrentavas algumas dificuldades, mesmo que mais brandas do que hoje em dia, mas com certeza passar por isso piorou a minha qualidade de vida em 500%.
Sair de casa é difícil, cuidar de mim mesma é difícil e encontrar ânimo para seguir uma rotina é difícil. Já tive dias de não querer levantar. A ideia de entrar em contato constante com pessoas e de me sentir exposta a elas estava insuportável, me desesperava (e em algumas ocasiões ainda desespera). Como eu pretendia seguir como uma estudante de comunicação dessa forma? Como se nada estivesse acontecendo? Eu não podia. Então eu decidi abandonar o curso.
Tranquei a matrícula como uma medida temporária, mas a verdade é que eu não pretendo voltar — pelo menos não para comunicação. Estou, aos poucos, refazendo planos e considerando novas possibilidades para a minha vida. Eu preciso de um novo começo. Quando penso em retrospectiva, tento encontrar uma justificativa para ter escolhido estudar Jornalismo lá em 2015, mesmo tendo passado a vida escolar inteira sendo mais das exatas. E jamais encontrei uma resposta. Já cheguei a pensar que eu apenas tinha que passar por isso, para aprender algumas coisas e amadurecer, mas logo refutei a ideia. Nenhuma mulher precisa passar por uma situação de violência para atingir o seu crescimento pessoal.
Passar por isso não me fez mais forte. Não me tornou uma pessoa melhor. Passar por isso apenas me fez ser mais uma vítima em meio a tantas. Mais um caso em uma delegacia. E nada além.
Apesar de tudo, não me arrependo das escolhas que fiz. Conheci duas mulheres incríveis a quem posso chamar de amigas. Elas fizeram esses anos terem valido a pena e sempre foram um porto seguro em um ambiente que me era tão hostil. Layla e Laize, obrigada pelo companheirismo e pela força. Vocês são imensamente importantes para mim. Enquanto nós conseguirmos tirar sentimentos bons, nada jamais será uma perda de tempo.
Estou escrevendo isso duas semanas após ter ido à secretaria do curso solicitar o trancamento da matrícula. Em alguns momentos é preciso parar e refletir se o que estamos fazendo tem algum sentido e se está nos fazendo bem — e tudo bem se concluirmos que não.
Desistir nem sempre significa fracassar. Muitas vezes, na verdade, desistir significa ter coragem.
Tranquei a matrícula como uma medida temporária, mas a verdade é que eu não pretendo voltar — pelo menos não para comunicação. Estou, aos poucos, refazendo planos e considerando novas possibilidades para a minha vida. Eu preciso de um novo começo. Quando penso em retrospectiva, tento encontrar uma justificativa para ter escolhido estudar Jornalismo lá em 2015, mesmo tendo passado a vida escolar inteira sendo mais das exatas. E jamais encontrei uma resposta. Já cheguei a pensar que eu apenas tinha que passar por isso, para aprender algumas coisas e amadurecer, mas logo refutei a ideia. Nenhuma mulher precisa passar por uma situação de violência para atingir o seu crescimento pessoal.
Passar por isso não me fez mais forte. Não me tornou uma pessoa melhor. Passar por isso apenas me fez ser mais uma vítima em meio a tantas. Mais um caso em uma delegacia. E nada além.
Apesar de tudo, não me arrependo das escolhas que fiz. Conheci duas mulheres incríveis a quem posso chamar de amigas. Elas fizeram esses anos terem valido a pena e sempre foram um porto seguro em um ambiente que me era tão hostil. Layla e Laize, obrigada pelo companheirismo e pela força. Vocês são imensamente importantes para mim. Enquanto nós conseguirmos tirar sentimentos bons, nada jamais será uma perda de tempo.
Estou escrevendo isso duas semanas após ter ido à secretaria do curso solicitar o trancamento da matrícula. Em alguns momentos é preciso parar e refletir se o que estamos fazendo tem algum sentido e se está nos fazendo bem — e tudo bem se concluirmos que não.
Desistir nem sempre significa fracassar. Muitas vezes, na verdade, desistir significa ter coragem.
Don't back down, concentrate on seeing
Não pretendo permitir que tudo
isso tire o brilho que eu sempre enxerguei na vida. Sempre soube que quero
mais, que a vida deve ser mais do que obrigações,
medos, inseguranças e fórmulas prontas. Apesar de estar muito difícil, eu
sei que tenho a imensa sorte de ter pessoas maravilhosas ao meu lado e amigas
que estão ali por mim – Lily, Nati, Barbie e Aninha, obrigada por serem vocês e por sempre
me ajudarem tanto. Eu sei que vou conseguir superar tudo isso – mesmo que agora
pareça impossível.
Apenas o fato de conseguir
escrever sobre isso e deixar público para quem quiser ver – mesmo que quase
ninguém vá ver – já é algo a considerar. Sou do tipo de pessoa que prefere
compartilhar coisas boas, porque todos nós já sabemos o que carregamos de ruim. Em parte me entristece publicar um texto com esse teor no lugar que eu mais
amo na internet – o lugar que eu construí com tanto carinho junto com a Lily, e mesmo essa decisão não foi fácil.
Demorei algum tempo para decidir realmente tornar público o meu relato. Não queria fazer dele — do cara que me fez mal — um protagonista no meu lugar na internet. Demorei, mas enfim percebi que publicar esse texto não significa nada parecido. Significa que eu consegui ser forte o suficiente para expor uma situação delicada, corriqueira e que muitas vezes é menosprezada mundo afora. Significa que eu estou impondo a minha voz e falando sobre mim. Sobre os meus sentimentos. sobre o meu crescimento e sobre o quanto eu consegui amadurecer e retirar o máximo possível de coisas boas diante de uma situação péssima. Eu tenho pessoas — mulheres — maravilhosas na minha vida. Publicar esse texto significa que a força de todas elas juntas, ao meu lado, me deixou mais forte. Algumas coisas simplesmente precisam ser ditas. Essa é uma delas.
Ainda tenho pesadelos a respeito de tudo o que aconteceu. Ainda acordo com uma sensação ruim de que esse pânico e essa tensão nunca vão passar. De que eu não vou conseguir esquecer. Mas eu vou. Eu ainda tomo remédios para a ansiedade social, para amenizar o meu medo e para voltar a levar uma vida normal. para melhorar a qualidade da minha vida, que há muito tempo era praticamente nula. E tudo bem. Está perfeitamente bem precisar de ajuda. Alguns fardos nós não precisamos carregar sozinhas.
Se você leu até aqui, obrigada. Todos esses fatos agora fazem parte da minha história. Mas eles, definitivamente, não a definem.
O assédio moral e a violência psicológica contra mulheres existem. Eles estão bem ali, onde quase ninguém vê — e podem causar danos irreversíveis. Se você passa por isso, por favor, fale. Nós temos voz. Você tem voz.
E ela merece ser ouvida.
Demorei algum tempo para decidir realmente tornar público o meu relato. Não queria fazer dele — do cara que me fez mal — um protagonista no meu lugar na internet. Demorei, mas enfim percebi que publicar esse texto não significa nada parecido. Significa que eu consegui ser forte o suficiente para expor uma situação delicada, corriqueira e que muitas vezes é menosprezada mundo afora. Significa que eu estou impondo a minha voz e falando sobre mim. Sobre os meus sentimentos. sobre o meu crescimento e sobre o quanto eu consegui amadurecer e retirar o máximo possível de coisas boas diante de uma situação péssima. Eu tenho pessoas — mulheres — maravilhosas na minha vida. Publicar esse texto significa que a força de todas elas juntas, ao meu lado, me deixou mais forte. Algumas coisas simplesmente precisam ser ditas. Essa é uma delas.
Ainda tenho pesadelos a respeito de tudo o que aconteceu. Ainda acordo com uma sensação ruim de que esse pânico e essa tensão nunca vão passar. De que eu não vou conseguir esquecer. Mas eu vou. Eu ainda tomo remédios para a ansiedade social, para amenizar o meu medo e para voltar a levar uma vida normal. para melhorar a qualidade da minha vida, que há muito tempo era praticamente nula. E tudo bem. Está perfeitamente bem precisar de ajuda. Alguns fardos nós não precisamos carregar sozinhas.
Se você leu até aqui, obrigada. Todos esses fatos agora fazem parte da minha história. Mas eles, definitivamente, não a definem.
O assédio moral e a violência psicológica contra mulheres existem. Eles estão bem ali, onde quase ninguém vê — e podem causar danos irreversíveis. Se você passa por isso, por favor, fale. Nós temos voz. Você tem voz.
E ela merece ser ouvida.
The past is still the past, the bridge to nowhere...
*os trechos ao longo do post foram retirados da música Should Have Known Better, do Sufjan Stevens. Ela é maravilhosa. ♡
*o poema faz parte do livro Tudo nela brilha e queima, da Ryane Leão. Também é maravilhoso. ♡
*o poema faz parte do livro Tudo nela brilha e queima, da Ryane Leão. Também é maravilhoso. ♡
Escrito por: Jennifer Macieira
14 de fevereiro de 2018
Recife: a capital do frevo

Sabem aquela cidade que você vai tantas vezes que acaba não a enxergando como um destino de viagem? Mesmo que ela tenha um cantinho especial no seu coração? Esse sempre foi o meu caso com Recife.
Localizada há apenas três horas de Maceió, é certo que vou para a capital de Pernambuco ao menos uma vez por ano para visitar meu primo que mora lá. Algo que tinha tudo para ser incrível, mas que eu nunca soube aproveitar muito bem, porque minha família criou uma rotina ao longo do tempo de ficar apenas na casa dele e de ir nos mesmos lugares.
Há algumas semanas atrás, precisamos ir até lá, só que fomos com um espírito diferente e é por isso que resolvi escrever esse post e publicá-lo em pleno fim de carnaval, um período tão simbólico para a cidade.
Meu irmão nos acompanhou, alguém com quem sempre posso contar para algumas aventuras, e juntos nós convencemos o pessoal a explorar um pouquinho melhor as redondezas, a começar pela área do Recife Antigo, uma zona histórica cheia de cores e energias positivas, motivo de eu gostar tanto dessa terrinha.
Sempre que visito essa parte de Recife, tenho recordações de grupos de música ou de dança se apresentando no Marco Zero, sem falar nos vários cantinhos de cultura acessíveis. Imaginem, então, na época de carnaval, quando tudo isso se intensifica, tornando a identidade deles ainda mais visível e especial.
Meu irmão nos acompanhou, alguém com quem sempre posso contar para algumas aventuras, e juntos nós convencemos o pessoal a explorar um pouquinho melhor as redondezas, a começar pela área do Recife Antigo, uma zona histórica cheia de cores e energias positivas, motivo de eu gostar tanto dessa terrinha.
Sempre que visito essa parte de Recife, tenho recordações de grupos de música ou de dança se apresentando no Marco Zero, sem falar nos vários cantinhos de cultura acessíveis. Imaginem, então, na época de carnaval, quando tudo isso se intensifica, tornando a identidade deles ainda mais visível e especial.
Eu nunca fui de gostar de carnaval até passar um deles em Recife/Olinda. Ainda hoje prefiro descansar e ficar em casa, mas lá foi que eu percebi que há certa magia nessa festividade, para além do que todos veem quando pensam no carnaval. É como se a verdadeira essência do frevo e de tantos outros ritmos típicos dessa época do ano só fossem celebrados devidamente ali.
Isso é algo que eles levam a sério durante todos os outros meses, não é toa que o Recife Antigo está cheio de cantinhos que celebram essa cultura tão forte e tão bonita. As pessoas realmente valorizam esses espaços e o orgulho que eles sentem transcende para qualquer turista que esteja visitando a região.
Isso é algo que eles levam a sério durante todos os outros meses, não é toa que o Recife Antigo está cheio de cantinhos que celebram essa cultura tão forte e tão bonita. As pessoas realmente valorizam esses espaços e o orgulho que eles sentem transcende para qualquer turista que esteja visitando a região.
O Paço do Frevo é um deles. Com uma estrutura belíssima, por dentro e por fora, esse foi o lugar que conquistou meu coração nessa última viagem, porque foi uma novidade muito bem vinda à nossa programação de sempre.
Descobrimos que às terças sua entrada é gratuita, então voltamos para o Recife Antigo nesse dia - mesmo tendo passado o domingo inteiro vagando por lá - com o objetivo de economizar. Estávamos bem cansados e viajaríamos algumas horas depois, mas saímos todos muito felizes e satisfeitos por termos dedicado nosso tempo a visitar esse lugarzinho mágico.

Para começar, damos de cara com o café mais fofo do mundo na entrada no museu: o Café Malakoff. O vermelho das paredes e o verde das janelas me lembraram de alguma forma o folder do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain e eu fiquei levemente encantada desde o princípio. As luzinhas penduradas pelo local e alguns nomes de personalidades importantes para a história do frevo dão um charme a mais para o ambiente.

Para começar, damos de cara com o café mais fofo do mundo na entrada no museu: o Café Malakoff. O vermelho das paredes e o verde das janelas me lembraram de alguma forma o folder do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain e eu fiquei levemente encantada desde o princípio. As luzinhas penduradas pelo local e alguns nomes de personalidades importantes para a história do frevo dão um charme a mais para o ambiente.
Minha família já foi logo passando as catracas para o que seria o início das exposições, enquanto eu ainda encarava os detalhes desse café maravilhoso.
Quando me rendi, percebi que as exposições do térreo contavam com informações para se ler durante toda uma vida, sobre a história do frevo e das pessoas que contribuíram para ele ser o que é hoje, com passagens marcantes e acontecimentos históricos divididos por anos, dispostos para você folhear o que achar mais interessante.

O funcionário responsável nos deu a dica de buscar anos especiais para nós, atrás de algumas curiosidades, já que era humanamente impossível ler tudo em um dia, e foi o que nós fizemos. O mais legal era dar uma olhada num livro maior, bem no centro da sala, porque ele tocava uma marchinha diferente a cada página virada.
As paredes de cada salinha também ajudam a criar um efeito super legal, porque elas são uma exposição à parte e tudo que está exposto no Paço do Frevo conta com uma versão em inglês, o que o torna um lugar acessível para estrangeiros.
Mas meu ambiente preferido mesmo está no último andar. Ele expõe as melhores marchinhas de carnaval desenhadas em janelas de vidro que dão para vistas lindas e diferenciadas da cidade, além de outras informações sobre bloquinhos e sobre o frevo em si por todas as partes, desde o chão, até as paredes e o teto.
A gente fica até meio perdido no meio de tanta lindeza para olhar.
Quem não é da região pode ser bastante distraído ainda pelas diversas palavras e expressões próprias que estão dispostas em plaquinhas, junto de seus respectivos significados.
Por isso que o Paço do Frevo facilmente tornou-se um favorito.
Nós ainda chegamos a entrar na Embaixada de Pernambuco, onde ficam mais de sessenta bonecos gigantes de personalidades famosas no Brasil e no mundo - os famosos bonecos de Olinda. Mas a entrada para os dois museus espalhados no Recife Antigo nos custaria R$25,00 por pessoa, um preço o qual, infelizmente, não estávamos dispostos a pagar.
Nós ainda chegamos a entrar na Embaixada de Pernambuco, onde ficam mais de sessenta bonecos gigantes de personalidades famosas no Brasil e no mundo - os famosos bonecos de Olinda. Mas a entrada para os dois museus espalhados no Recife Antigo nos custaria R$25,00 por pessoa, um preço o qual, infelizmente, não estávamos dispostos a pagar.
Ainda assim, fiquei com um gostinho bem mais doce ao visitar Recife dessa vez. Me apaixonei pela sua cultura uma vez mais e fiquei ansiosa para voltar e conhecer mais lugares incríveis, como o Cais do Sertão, um museu que exalta a cultura nordestina como um todo e seus ritmos, como o forró pé de serra, o xaxado, o baião, etc.
Ele também fica localizado no Recife Antigo e dispõe de entrada gratuita às terças. Conseguimos chegar lá facilmente depois do Paço do Frevo, mas, acreditem ou não, faltou energia bem no meio da nossa visita.
Estávamos numa sessão de cinema emocionante lá dentro quando houve a queda de energia. Ainda demoramos alguns segundos para perceber, porque pensamos que a escuridão fazia parte de algum efeito do filme. Mas não, era só nosso azar mesmo.
Aguardamos mais de quarenta minutos na esperança de o problema se resolver logo, mas nada feito, então vou guardar esse cantinho especial para uma outra visita, quando espero poder falar melhor sobre ele por aqui.
Estranhamente, me alegra pensar que tenho algo igualmente incrível para ansiar da próxima vez. Faz algum sentido para vocês?
Aguardamos mais de quarenta minutos na esperança de o problema se resolver logo, mas nada feito, então vou guardar esse cantinho especial para uma outra visita, quando espero poder falar melhor sobre ele por aqui.
Estranhamente, me alegra pensar que tenho algo igualmente incrível para ansiar da próxima vez. Faz algum sentido para vocês?
Só nos restou caminhar pelas ruas dessa área histórica e colorida, onde já haviam indícios de que o carnaval estava próximo, como o famoso galo da madrugada exposto em uma das ruas principais.
Nas proximidades, o Paço Alfândega quebra um galho com várias opções de comida, sem falar na bela distração que é a Livraria Cultura ao seu lado.
Nas proximidades, o Paço Alfândega quebra um galho com várias opções de comida, sem falar na bela distração que é a Livraria Cultura ao seu lado.
O Artesanato de Pernambuco também é uma parada obrigatória, porque está cheio de coisas lindas e é um dos mais organizados que já vi entre as capitais que conheci no nordeste. Não pude deixar de comprar um imã da cidade.
Para quem não sabe, desde que voltei da Colômbia, comecei a fazer coleção de imãs das cidades que eu já visitei. Já fui para Recife desde então, mas essa foi a primeira vez que senti que estava conhecendo a cidade realmente, então precisei eternizar isso de alguma forma.
Ainda fizemos uma parada na Caixa Cultural, onde havia uma exposição inspiradora sobre um homem que sobrevoou vários lugares incríveis e outros marcados pela destruição natural, conhecendo a história das pessoas e dos lugares onde vivem. Aquele era o último dia em que ela estaria ali e me senti sortuda por um momento.
"Voar sempre foi a forma mais expressiva da palavra liberdade. É voando pelo horizonte, com o toque suave do vento no rosto, levitando pelo ar, que me sinto livre e em paz comigo e com a vida." Lu Marini
Para quem não sabe, desde que voltei da Colômbia, comecei a fazer coleção de imãs das cidades que eu já visitei. Já fui para Recife desde então, mas essa foi a primeira vez que senti que estava conhecendo a cidade realmente, então precisei eternizar isso de alguma forma.
Ainda fizemos uma parada na Caixa Cultural, onde havia uma exposição inspiradora sobre um homem que sobrevoou vários lugares incríveis e outros marcados pela destruição natural, conhecendo a história das pessoas e dos lugares onde vivem. Aquele era o último dia em que ela estaria ali e me senti sortuda por um momento.
"Voar sempre foi a forma mais expressiva da palavra liberdade. É voando pelo horizonte, com o toque suave do vento no rosto, levitando pelo ar, que me sinto livre e em paz comigo e com a vida." Lu Marini
Foi saindo de lá que meu pai resolveu comprar um quebra-queixo de formato estranho e mega doce, que nem eu reconheci o que era de primeira. Vocês já comeram? Tem isso aí na cidade de vocês? Algumas pessoas já me responderam lá nas stories do insta do blog. Eu fico boba com algumas diferenças culturais, amo percebê-las e compartilhar novidades.
No domingo, encerramos o dia com bebidinhas marotas nomeadas em homenagens a bandas e cantores de rock. Até às 20h, exceto aos sábados, parece que elas saem pela metade do preço. Imaginem se não nos aproveitamos disso. A decoraçãoe o Eric Clapton do meu irmaõ e a playlist de lá me fizeram adorar o Rock n' Ribs. Ele fica pertinho do Marco Zero, numa galeria com alguns bares e restaurantes.
No domingo, encerramos o dia com bebidinhas marotas nomeadas em homenagens a bandas e cantores de rock. Até às 20h, exceto aos sábados, parece que elas saem pela metade do preço. Imaginem se não nos aproveitamos disso. A decoração
Há quase um ano atrás, escrevi um post não tão animado sobre uma visita a Recife, que nunca chegou a ser publicado por não ser o tipo de conteúdo que eu gosto de compartilhar por aqui - frustrado e angustiado por não conseguir explorar a cidade como eu gostaria.
Eu prometi a mim mesma desde então que só voltaria para lá pelos motivos certos, para fazer algo legal, e eu consegui ser fiel a essa promessa de alguma forma, então eu estou bem feliz de estar escrevendo esse post agora e de estar o publicando nessa quarta-feira de cinzas.
Não passei o carnaval lá dessa vez, essas informações se referem a uma visita que fiz há cerca de duas semanas, mas lá é tempo de festa o ano inteiro e eu espero tê-los inspirado um pouquinho a conhecer a cidade e os preparado para esse momento. Afinal, Recife é a capital do frevo e...
"o frevo não convida, arrasta".
♡
Até a próxima,
Lis
leia também
Escrito por: Unknown
22 de janeiro de 2018
Feira de pulgas de Usaquén, Parque Simón Bolívar e peripécias pela zona T

✨ vinte e cinco de dezembro de dois mil e dezesseis
Imaginem duas pessoas perdidas, sonolentas e de corpo dolorido, éramos eu e a Lê na manhã de natal daquele ano. A gente se olhava com expressões tão desoladas, ainda no quarto do hostel, que dava até vontade de rir de repente. Acordamos um pouco mais tarde, para descansar melhor, mas descemos a tempo de tomar café da manhã e decidir o que fazer.
A noite fora longa e nossa viagem estava sendo muito intensa até ali, mas nós queríamos tornar nosso dia produtivo e conhecer melhor a cidade, então resolvemos caminhar pelo bairro em que estávamos, uma opção mais light para esse dia meio estranho, em que não sabíamos o que estaria aberto ou não.
A noite fora longa e nossa viagem estava sendo muito intensa até ali, mas nós queríamos tornar nosso dia produtivo e conhecer melhor a cidade, então resolvemos caminhar pelo bairro em que estávamos, uma opção mais light para esse dia meio estranho, em que não sabíamos o que estaria aberto ou não.

Nossos amigos do hostel resolveram conhecer a candelaria, que foi nosso primeiro programinha na cidade, então acabamos nos separando deles por alguns momentos. Éramos só eu, a Lê, algumas folhinhas voando pelo ar e um ou outro carro passando na rua. A cidade parecia adormecida.
Mas isso não foi um problema, ainda mais porque nos deparamos com várias ruas fofas e conhecemos a badalada zona T - famosa pelos bares, restaurantes e lojas chiquetosas - na maior tranquilidade, quando a maioria dos locais estavam fechados. Ela ganha esse nome pelo formato que a área tem, fechadas para carros em todas as três extremidades.
Continuamos caminhando por um tempo e chegamos até o parque de la 93, um lugar super bonitinho que eu vi em algum cantinho dessa internet e que conseguimos conhecer graças às indicações do pessoal do hostel - mais uma vez.
Ainda que simples, achei esse um lugar encantador em Bogotá para perceber um pouco do cotidiano dos moradores, passeando com seus cachorrinhos, comendo algo pelo gramado, lendo ou se reunindo para conversar nos arredores.
Eu e a Lê dividimos um saco de batatinhas - nossa principal refeição enquanto viajamos, sim senhores - e relaxamos lá por um tempo, curtindo o ambiente. Uma das coisas que eu mais amava na nossa amizade repentina era a facilidade que tínhamos em nos adaptar aos locais e aproveitar cada momentinho, como se eles fossem incríveis à sua maneira. ♡
Um detalhe que, pra mim, fez toda diferença, foram as mesinhas coloridas espalhadas ao redor de uma banca de livros, onde, aparentemente, você pode escolher algum para ler ou algo do tipo. Ela estava fechada, o que é totalmente compreensível para uma manhã de natal, mas achei aquilo muito adorável e fiquei imaginando como seria legal morar ali por perto.
Eu amo que tanto em Medellín quanto em Bogotá eu tenha encontrado cantinhos de incentivo à leitura. Eles só as fizeram subir no meu conceito.
Continuamos nosso passeio até um ponto de ônibus mais afastado, onde a Natália - recepcionista do nosso hostel - nos disse que poderíamos pegar um até o mercado de pulgas de usaquén, um lugar em que vendem todo tipo de coisas antigas e interessantes, sempre aos domingos, mesmo em época de festas.
Como aquele era um domingo, a coincidência nos pareceu até um sinal para conhecermos mais um lugar legal na cidade antes de irmos. O que não pareceu um sinal foi percebermos que nosso cartão do transporte público da cidade estava zerado e que não havia um posto de atendimento próximo para colocarmos créditos.
Ainda tentamos entrar na linha de ônibus que nos levaria até usaquén, mas o motorista - muito gentilmente, se é que isso é mesmo possível diante das condições - não nos deixou passar, nem mesmo pagando em dinheiro.
Escrito por: Unknown
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